Para Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, o maior desafio do setor funerário no Brasil não é de infraestrutura nem de regulação: é de cultura. Profissionalizar o mercado funerário significa, antes de tudo, mudar a forma como gestores, equipes e o próprio público entendem o que deve ser exigido de um serviço que existe para amparar as famílias no momento mais vulnerável de suas vidas.
- Profissionalizar um setor que lida com o luto: por que isso é mais urgente do que parece?
- O que significa um mercado funerário profissionalizado?
- Quem forma os profissionais que atuam no segmento funerário brasileiro?
- A crescente formalização do setor funerário no Brasil reflete mudanças nas percepções sobre morte e luto
O mercado funerário brasileiro emprega diretamente centenas de milhares de pessoas e está presente em praticamente todos os municípios do país, mas durante décadas operou sem parâmetros claros de formação, qualidade ou gestão. A ausência de critérios mínimos criou um ambiente desigual, em que boas práticas conviviam lado a lado com improviso e falta de preparo, e as famílias em luto pagavam o preço dessa inconsistência.
Esse cenário está mudando. A profissionalização avança de forma concreta, impulsionada por associações setoriais, novas regulações e uma geração de gestores que entende que excelência no atendimento funerário é, acima de tudo, uma questão de respeito humano. Continue lendo para entender o que esse processo significa na prática e quais são os desafios que ainda exigem atenção.
Profissionalizar um setor que lida com o luto: por que isso é mais urgente do que parece?
Quando se fala em profissionalização do mercado funerário, é comum que a conversa recaia sobre aspectos operacionais: licenças, equipamentos, normas sanitárias. Segundo Tiago Oliva Schietti, no entanto, a dimensão mais relevante desse percurso está na qualidade do contato humano. Um velório mal conduzido, um atendente despreparado para receber uma família em choque ou uma informação equivocada sobre um procedimento podem causar danos emocionais que se somam à dor já insuportável da perda.
O luto é uma das experiências mais universais da vida humana, e os profissionais que atuam no setor funerário estão presentes em seu momento mais agudo. Isso exige um nível de preparo que vai além do conhecimento técnico: envolve empatia treinada, comunicação não violenta, compreensão das dinâmicas familiares e capacidade de manter a serenidade quando tudo ao redor é emocionalmente intenso. Esse tipo de competência não surge espontaneamente; ela precisa ser ensinada, praticada e continuamente aprimorada.

O que significa um mercado funerário profissionalizado?
A profissionalização do setor funerário tem faces múltiplas. Na dimensão da gestão, ela se traduz em cemitérios e funerárias que operam com planejamento de longo prazo, controles operacionais bem definidos e equipes com funções claras e responsabilidades distribuídas. De acordo com Tiago Oliva Schietti, um empreendimento funerário bem gerido é aquele que consegue manter a qualidade do atendimento mesmo em dias de alta demanda, sem que a eficiência comprometa a sensibilidade.
No campo da formação, a profissionalização passa por cursos técnicos, graduações e especializações voltadas ao segmento. Algumas universidades brasileiras já oferecem disciplinas ou programas focados em gestão cemiterial e tanatologia aplicada, e o número de treinamentos setoriais organizados por associações como a Acembra Sincep cresceu consideravelmente na última década. Essa oferta formativa é fundamental para que novos profissionais cheguem ao setor com uma base sólida, em vez de aprender apenas no improviso do dia a dia.
Quem forma os profissionais que atuam no segmento funerário brasileiro?
A formação dos profissionais do setor funerário no Brasil ainda é um campo em construção. Durante décadas, o conhecimento foi transmitido principalmente dentro das próprias empresas, de forma oral e assistemática, sem qualquer padronização. Tal como aponta Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, esse modelo funcionou em ambientes familiares e de pequena escala, mas se tornou insuficiente à medida que o setor cresceu e as exigências das famílias se tornaram mais complexas.
Nos últimos anos, a Acembra Sincep e outras entidades representativas passaram a oferecer programas estruturados de capacitação, abrangendo desde aspectos técnicos do embalsamamento e do manejo de corpos até temas como gestão comercial, comunicação com enlutados e sustentabilidade ambiental. Esses programas têm desempenhado um papel decisivo na elevação do padrão médio do setor, especialmente entre empresas de médio porte que não têm estrutura para desenvolver treinamentos internos sofisticados.
A crescente formalização do setor funerário no Brasil reflete mudanças nas percepções sobre morte e luto
A trajetória de profissionalização do mercado funerário brasileiro é, em última análise, um reflexo de como a sociedade está aprendendo a tratar o luto com mais seriedade e dignidade. Quando se exige mais de quem presta esse serviço, está se reconhecendo, implicitamente, que a dor das famílias merece ser acolhida com competência e não apenas tolerada.
Esse movimento dialoga com transformações culturais mais amplas: a busca por serviços personalizados, a valorização da transparência nas relações de consumo, a crescente consciência sobre saúde mental e o papel do luto no equilíbrio emocional das pessoas. O setor funerário que se profissionaliza está respondendo a essas demandas e, ao fazer isso, amplia sua própria relevância social, finaliza Tiago Oliva Schietti.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez