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O silêncio dos balanços: como créditos reclassificados escondem o verdadeiro tamanho do estresse no mercado corporativo brasileiro

Por Noah Evermont
Publicado: julho 2, 2026
7 Min de leitura
Felipe Rassi
Felipe Rassi
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Em meio às transformações recentes do arcabouço regulatório financeiro, Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, analisa um fenômeno que raramente ocupa o centro do debate: a distância entre o que os balanços registram e o que efetivamente acontece com a saúde do crédito corporativo no Brasil. Créditos reclassificados, operações reestruturadas e provisões calibradas com modelos internos compõem uma camada de opacidade que, em muitos casos, adia o reconhecimento de um estresse que já está instalado. 

Contents
  • O que a reclassificação contábil revela e o que esconde?
  • A renegociação como disfarce do estresse real
  • O estágio 2 como zona de sombra entre saúde e crise
  • O que os números não dizem e o que o mercado precisa aprender a ler?

As empresas brasileiras encerraram 2025 com R$ 213 bilhões em dívidas e inadimplência no maior patamar já registrado, segundo a Serasa Experian, com 8,9 milhões de CNPJs no vermelho. Os números são expressivos. A questão é quantos desses casos já tinham sinais mensuráveis muito antes de aparecer nas estatísticas públicas.

O que a reclassificação contábil revela e o que esconde?

A Resolução CMN n.º 4.966/21, em vigor desde janeiro de 2025, introduziu no Brasil um modelo de provisão baseado em perda esperada, alinhado ao padrão internacional IFRS 9. Pela nova lógica, quando o rating interno de um cliente é rebaixado após doze meses, mesmo sem inadimplência ainda observada, a operação migra do estágio 1 para o estágio 2, exigindo provisão sobre o prazo restante do contrato e potencialmente forçando reclassificação contábil com aumento significativo da provisão. A mudança representa um avanço técnico inegável em termos de transparência prospectiva. O ponto de tensão está no espaço discricionário que permanece na definição dos modelos internos de cada instituição.

Segundo Felipe Rassi, a calibragem desses modelos varia de forma relevante entre as instituições financeiras, o que significa que dois balanços com carteiras de risco equivalente podem apresentar provisões significativamente distintas, sem que isso configure qualquer descumprimento regulatório. A harmonização da IFRS 9 busca capturar a realidade econômica nos balanços, mas a regulamentação local estimula um processo de blindagem mais conservador, e recursos como pisos de provisão podem amplificar saldos provisionados, especialmente em estágios de alto grau de inadimplência. O resultado prático é que a leitura de um balanço exige, hoje, um nível de expertise analítica que vai muito além da interpretação dos números publicados.

A renegociação como disfarce do estresse real

Um dos mecanismos mais recorrentes de invisibilização do crédito estressado no mercado corporativo é a renegociação de dívidas feita antes que o crédito alcance os estágios de maior visibilidade regulatória. O timing da renegociação mudou: empresas estão buscando acordos mais cedo porque os juros elevados corroem a capacidade de pagamento com o passar do tempo. Do ponto de vista do devedor, antecipar a renegociação é racional. Do ponto de vista da análise de risco do mercado, esse movimento cria uma camada de créditos formalmente performados que carregam, na prática, características econômicas de ativos estressados.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

Como indica Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, a renegociação precoce, quando bem estruturada, pode ser um instrumento legítimo de gestão de passivos. O problema ocorre quando ela é utilizada sistematicamente para manter créditos em estágios contábeis mais favoráveis, sem que a capacidade real de pagamento do devedor tenha sido restaurada. Contratos firmados entre 2021 e 2025, em ambiente de crédito farto, foram estruturados sem considerar o cenário atual de juros elevados, e muitos desses instrumentos carregam cláusulas que, no contexto presente, tornam a posição do credor mais vulnerável do que aparenta. A fragilidade, nesses casos, está latente nos contratos e não nos balanços.

O estágio 2 como zona de sombra entre saúde e crise

No estágio 2 da nova classificação regulatória, caracterizado por aumento relevante do risco, como nos casos de atrasos superiores a 30 dias, a provisão deve abranger toda a vida útil do contrato. Já o estágio 3 é destinado aos ativos em efetiva inadimplência, geralmente com atrasos superiores a 90 dias, exigindo provisão integral do valor exposto. O estágio 2 é, nesse sentido, a zona de maior interesse analítico: é onde estão os créditos que já sofreram deterioração de risco mensurável, mas que ainda não geraram impacto visível nos indicadores públicos de inadimplência.

Na avaliação de Felipe Rassi, o volume de créditos corporativos classificados no estágio 2 é um dos indicadores mais subestimados pelos analistas de risco que atuam no mercado de ativos estressados. Carteiras com concentração elevada nesta faixa podem apresentar índices de inadimplência aparentemente controlados, enquanto carregam um potencial de migração para o estágio 3, que se materializa de forma abrupta quando o ambiente macroeconômico piora ou quando o devedor perde acesso a novas linhas de refinanciamento. Em apenas um ano, de 2024 para 2025, o Brasil registrou o surgimento de 2 milhões de novos CNPJs inadimplentes, impulsionado por condições de crédito mais seletivas e dificuldade de recomposição de fluxo de caixa. 

O que os números não dizem e o que o mercado precisa aprender a ler?

A sofisticação crescente dos instrumentos regulatórios não eliminou o problema da opacidade, apenas o deslocou. A implementação do IFRS 9 e das Resoluções CMN 4.966 e BCB 352 aumentou a volatilidade dos balanços, exigindo ajustes constantes nas provisões de acordo com cenários econômicos e riscos projetados de crédito, o que reforça a importância de modelos preditivos robustos para mitigar impactos excessivos na rentabilidade. Para quem opera no mercado de créditos estressados, a mensagem prática é direta: analisar uma carteira corporativa com base nos indicadores publicados é condição necessária, mas não suficiente.

Conforme pondera Felipe Rassi, a leitura competente do estresse real em carteiras corporativas exige acesso a dados granulares, capacidade de interpretar os modelos de provisão adotados por cada instituição e compreensão dos contratos subjacentes. O balanço fala, mas em um idioma que precisa ser traduzido. E a distância entre o que está escrito e o que está acontecendo é, muitas vezes, exatamente onde as melhores oportunidades e os maiores riscos do mercado de NPL corporativo se encontram.

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Notícias de Balneário Camboriú e Camboriú com foco em Política, Segurança, Economia e Turismo. Seu portal de jornalismo local no Litoral Norte de SC.

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